Pesquisa Teórica

foto_grafia/ O debate na frente de esquerda das artes, dissertação de mestrado, 2012

poderia ter partido do debate ainda mais antigo e não menos estéril sobre a relação entre forma e conteúdo, sobretudo na literatura política. Essa problemática não tem hoje boa reputação, e com toda justiça. Ela é considerada o caso exemplar da tentativa de abordar fenômenos literários de modo antidialético, através de estereótipos. Bem, mas qual seria o tratamento dialético da mesma questão?

W. Benjamin, 1934

 

frente à Revolução Bolchevique (1917), as vanguardas artísticas soviéticas foram levadas a um processo de revolução da própria ideia de arte, processo esse que gerou debates acirrados e colocou em questão a própria distinção tradicional entre arte e vida.

em 1928, por meio de um longo debate realizado nas páginas da Novyi Lef, o crítico literário e teórico produtivista O. Brik (1888-1971), o fotógrafo construtivista A. Rodchenko (1891-1956), o poeta e factógrafo B. Kushner (1888-1937) e o crítico literário, escritor e factógrafo S. Tretiakov (1892-1937) tentaram estabelecer o elemento responsável pelo caráter revolucionário da fotografia. Ao longo de nove meses (abril-dezembro), os cinco integrantes da Frente de Esquerda das Artes apresentaram seus pontos de vista.

 

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Construtivismo Russo: história, estética e política

 

ele [El Lissitzky] também nos mostrou livros e suas fotografias, algumas delas eram muito engenhosas […]. Perguntei se ele pintava. Ele respondeu que pintava apenas quando não tinha nada mais a fazer, e como isso nunca acontecia, nunca pintava.

Alfred H. Barr Jr., 1928

entre dezembro de 1927 e fevereiro de 1928, Alfred H. Barr Jr. (1902-1981), primeiro diretor e curador fundador do MoMA de Nova York, esteve na Rússia. Barr pretendia observar de perto as produções das vanguardas russas. Ao chegar na URSS – segundo seu diário –, em vez dos esperados clichês geométricos, deparou com uma gama de produções e debates que visavam reformular paradigmas tradicionais da arte e sua nova função social.

 

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Uma noiva Vermelha!

 

eu vejo, como que por através de um prisma, o triunfo de sua classe, cheio de grandeza, de energia, de elegância! Vejo também um casamento com consciência de classe! A noiva desce da carruagem, ela está toda vestida de vermelho! Uma noiva vermelha!

Maiakovski, 1928

poucas vezes na história questionou-se a existência do poeta (do artista como um todo) e, segundo Benjamin, em 1934, sua negação retornava em outros termos na negação de sua autonomia. Frente ao fascismo galopante, a ascensão do nazismo e os rumos do stalinismo, haveria razão de ser para a poesia? Em “O autor como produtor”, Benjamin respondeu afirmativamente, associando a necessidade da poesia ao papel por ela desempenhado dentro das relações de luta de classe e produção de sua época. Em 1929, cinco anos antes da redação de “O autor como produtor” e dois anos após a estadia de Benjamin em Moscou (1926-1927), o teórico e escritor russo Osip Brik (1888-1945) publicou o texto “Não uma teoria, mas uma palavra de ordem”. “Não uma teoria, mas uma palavra de ordem” consistia num esforço de sistematização da noção de “encomenda social” desenvolvida no interior do grupo LEF, como parte dos muitos debates, ocorridos na Rússia após 1917, sobre os rumos da literatura (e da arte como um todo) no estado proletário e da produção artística na luta de classes.

 

 

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Não comercializem Lênin: a critica do LEF ao culto do chefe

http://dazibao.cc/textos/nao-comercializem-lenin-a-critica-da-lef-ao-culto-de-lenin/, 2016

para encontrar uma analogia, daí devemos escapar para a região nebulosa do mundo religioso. Aqui os produtos da cabeça humana parecem dotados de vida própria relacionando-se uns com os outros e com os homens em figuras autônomas. 

K. Marx, 1852

às vésperas do funeral de Lênin, em 26 de janeiro de 1924, numa sessão especial do Congresso dos Sovietes da União, “o tributo de Stalin distinguiu-se de seus colegas por uma nota fervorosa de dedicação e adoração, ainda pouco comum no vocabulário marxista ou bolchevique”. Rapidamente as imagens de Lênin passaram a ser comercializadas em feiras e bancas de rua, ao lado dos “santinhos” da igreja ortodoxa. Lênin foi o tema de poemas, retratos, bustos e monumentos. Se por um lado artistas como Sergey Merkurov disputavam pela incumbência de produzir bustos e estatuetas de Lênin, por outro lado artistas ligados ao grupo Frente de Esquerda das Artes/LEF (1923-1928) denunciavam a “canonização” e a comercialização de Lênin.

 

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lampejos: arte, memória, verdade, justiça, Rio de Janeiro: Sinergia, Publicado em coedição com a UFMG e o Ministério da Justiça (Comissão de Anistia), 2016

articular o passado historicamente não significa conhecê-lo “tal como ele propriamente [ou supostamente] foi”. Significa apoderar-se de uma lembrança tal como ela lampeja num instante de perigo.

W. Benjamin, 1940

a luta por Memória, Verdade e Justiça abarca hoje o direito das famílias de vítimas e/ou das vítimas acertarem as contas com o passado (enterrar seus mortos, julgar seus algozes e serem repa- radas). Abarca, também, o acerto de contas histórico e político nacional (reformar e/ou extinguir instituições, leis e práticas legatárias da ditadura). Abarca, ainda, e talvez, acima de tudo, o resgate da história e dos ideais revolucionários por hora vencidos. Isto é, retomar a disputa política contra um sistema policialesco, antidemocrático, excludente e mantenedor dos privilégios das classes dominantes. “Um encontro secreto está então marcado entre as gerações passadas e a nossa”.

 

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